segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A EMERGENCIA DO PROLETARIO URBANO EM MOCAMBIQUE

 

O SURGIMENTO DAS VIAS DE COMUNICAÇÕES (CAMINHOS DE FERRO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS)

A ideia da construção de caminhos de ferro Lourenço-Marques-Transvaal foi discutida pela primeira vez no Transvaal em 1870.

Razões:

·         Transvaal pelo facto de ser um território sem acesso ao mar (Hinterland) pretendia libertar-se do domínio inglês e usar o porto de Lourenço Marques. De referir que este porto, também, era cobiçado pelos ingleses;

·         Para Portugal, a ideia era tão importante, pois, o caminho de ferro ia facilitar o acesso ao interior, para garantir a ocupação efectiva no Sul;

·         O caminho de ferro era a chave de desenvolvimento do Sul de Moçambique devido a proximidade com  África do Sul.

Em 1883, Portugal atribui à concessão da construção do caminho de ferro que iria ligar  Lourenço Marques-Transvaal ao americano, Mac Murdo.

Em 1887, iniciou-se a construção da linha férrea Lourenço Marques-Transvaal que foi inaugurada oficialmente, em 1895.

Outra linha de comunicação que cruzava Moçambique é o caminho de ferro que liga a Cidade da Beira e Rodésia do Sul.

Em 1892, iniciam-se os trabalhos de construção da linha férrea Beira-Macequesse.

Em 1897, a linha entre Beira e Untali entra em funcionamento e em 1898 foi inaugurada oficialmente a linha férrea Beira – Rodésia do Sul.

Exercícios escritos

1.       Quando é que se inaugurou oficialmente:

a)       Caminho de ferro Lourenço Marques – Transvaal?

b)       Caminho de ferro Beira – Rodésia do Sul

2.       Aponte as razões que levaram Portugal e o governo de Transvaal construrem os caminhos de Ferro Lourenço Marques – Transvaal?

A EMERGÊNCIA DO PROLETARIADO URBANO

As obras de construção iniciadas exigiram muita mão-de-obra. Na sua maioria eram recrutados no Sul do Save e em Sofala.

O trabalho migratório para os centros urbanos surgiu em paralelo ao trabalho migratório para os países vizinhos  e plantações.

Em consequência, surgem os primeiros aglomerados nas zonas urbanas e o surgimento dos primeiros trabalhadores assalariados em Moçambique. De referir que os primeiros assalariados trabalhavam em obras públicas, remoção de lixo, turismo, trabalhos domésticos e nos caminhos de ferro, o que deu origem ao aparecimento de camadas semiproletarizadas urbanas.

Foi no porto e caminhos de ferro de Lourenço Marques onde estavam  inseridos, o maior  número do proletariado urbano. Este proletariado foi atraído pelos centros urbanos emergentes com objectivo de conseguir melhores salários, de adquirir dinheiro para o lobolo entre outros.

É um proletariado ainda com bases assentes ao meio rural e sem nenhuma qualificação e sem consciência de classe ou seja, eram semiproletários.

Com o decorrer do tempo, ganham certa autonomia, e começam a reivindicar os seus direitos e melhores condições salariais.

 

A luta do proletariado urbano

Até 1900, o poder colonial português estava consolidado no Sul de Moçambique, e os laços de amizade e África do Sul eram fortes.

Em 1904, o governo colonial português para garantir a mão-de-obra, criou a Curadoria dos Negócios Indígenas e Emigração com o objectivo de supervisionar o recrutamento de trabalhadores para as minas Sul-Africanas, bem como para o uso interno.

O governo colonial tentou impedir o pagamento de salários elevados. Portanto, o nível de pagamento de salário em algumas empresas privadas no Porto e caminhos de ferro atraiu muita gente. Mas as injustiças salariais eram  notórias quer para trabalhadores contratados quer para os não contratados, o que levou os trabalhadores a protestar e organizar greves como o que aconteceu nas manifestações de Lourenço Marques (1905 e 1906) e mais tarde, conforme o quadro ilustrativo.

1919

Greve de estivadores negros

1920

Greve pessoal da empresa de transportes urbanos e ferroviários (brancos)

1921

Greve dos estivadores negros

1925

Greve em Lourenço Marques. Houve duplicação de salários e melhores condições de vida

 

As reivindicações desse proletariado foram parcialmente atentidas:

·         Houve melhorias salariais;

·         Foi uma acção isolada e sem coordenação com os restantes  trabalhadores;

·         Não houve diálogo entre trabalhadores brancos e negros (moçambicanos);

·         Ficaram separados por  ideologias racistas.

 

Qual foi o papel do governo português?

O Estado colonial português para fragilizar a greve utilizou as seguintes estratégias:

·         Aliciamento dos principais mentores das greves;

·         A táctica de dividir para melhor reinar, dando algumas regalias aos mulatos e negros assimilados;

·         Repressão, usando a polícia e outros instrumentos;

 

A luta do proletariado urbano fracassou, devido:

·         Falta de unidade no sector ferro-portuário entre trabalhadores contratados e não contratados, estivadores, trabalhadores de cais e outros;

·         O Estado colonial sugeriu as empresas privadas contratar mão-de-obra barata e não qualificada;

·         O uso de força  militar  para reprimir qualquer forma de reivindicação salarial.

Apesar deste fracasso, esta luta provou que os moçambicanos do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico não estavam satisfeitos com o sistema colonial.

 

AS PRIMEIRAS FORMAÇÕES NACIONALISTAS

“As primeiras formações nacionalistas em Moçambique nasceram da experiência do colonialismo europeu. A fonte de unidade nacional é o sofrimento comum durante os últimos 50 anos (...) trabalho forçado e outros aspectos da dominação colonial”. Mondlane, Eduardo, Lutar por Moçambique, Minerva Central,  pp87.

Essas primeiras formações nacionalistas foram influenciadas com a Nova República Portuguesa (1910-1926) e ideias pan-africanistas que fizeram protestos na imprensa contra os abusos do colonialismo.

As associações

As organizações associativas surgiram nos últimos anos da queda da monarquia portuguesa em 1910,  constituídas por mulatos  e negros assimilados.

Em 1908, fundou-se o Grémio Africano de Lourenço Marques que participou no Congresso Pan-africano  realizado em 1923, em Lisboa.

Em 1910, surgiu a Liga Africana que chegou a patrocinar a segunda parte do Congresso Pan-africano realizado em 1923, em Lisboa, em que se faz representar por Grémio Africano.

Em 1917, surgiu a primeira organização sindical dirigida pelos trabalhadores portugueses da associação do posto e dos caminhos de ferro.

Em 1920, é legalizada a Associação Africana de Lourenço Marques (Grémio Africano de Lourenço Marques), a mais importante e moderada organização da oposição dirigida pelos irmãos Albasini que integrava grupos de mulatos e negros assimilados.

 

O Grémio Africano caracterizava-se pelo seguinte:

·         Os seus membros eram mulatos e negros assimilados;

·         Além dos irmãos Albasini estiveram integrados Estâncio Dias, Karel Pott e Francisco Benfica;

·         A sua motivação era a valorização cultural e promoção intelectual da comunidade negra;

·         O veículo das suas ideias foi o  jornal “O Brado Africano”

·         Era contra a discrimanação racial.

 

O papel da imprensa

A imprensa desempenhou um papel muito importante na divulgação, censura, denúncia dos factos e ideias e maus tratos do colonialismo português e contestação do sistema colonial.

Para além do Jornal “O Brado africano”, surgiram outras publicações tais como O Proletário, fundado em 1912, o Ferroviário (1915/16), o Germinal (1914/18) e os Simples (1911/13) e outras que travaram luta acesa por um despertar da consciência operária entre os colonos brancos.

Os irmãos Albasini nos seus escritos quer no Brado Africano quer no Africano reivindicavam reformas no sistema colonial, exigindo os mesmos direitos que os portugueses. O Brado Africano, devido às suas actividades, veio a ser suspenso em 1932.

 

As manifestações literárias e artísticas

Poetas, pintores e escritores manifestaram o seu descontentamente perante o facto colonial. Os poetas e escritores que se destacaram, foram: Noémia de Sousa, José Craveirinha, Rui de Noronha, Nogar e outros. Nas pinturas Bertina Lopes e Malangatana Nguenha, esses nas artes pintavam tudo quanto os impressionassem como a fome, a humilhação, a pobreza e os maus  tratos do sistema colonial.

Exercícios escritos

1.      Como é que foram feitas as primeiras manifestações contra o sistema colonial?

2.      Explica o papel dos irmãos Albasini no desenvolvimento do nacionalismo moçambicano.

3.      Identifique as figuras que se destacaram nas manifestações literárias e artísticas contra o sistema colonial.

4.      Quando foram fundados os jornais “O Brado Africano” e “O Africano”? Por que razão o nacionalismo africano é diferente do europeu?

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