O
SURGIMENTO DAS VIAS DE COMUNICAÇÕES (CAMINHOS DE FERRO E SERVIÇOS PORTUÁRIOS)
A ideia da construção de caminhos de
ferro Lourenço-Marques-Transvaal foi discutida pela primeira vez no Transvaal
em 1870.
Razões:
·
Transvaal pelo facto de
ser um território sem acesso ao mar (Hinterland) pretendia libertar-se do
domínio inglês e usar o porto de Lourenço Marques.
De referir que este porto, também, era cobiçado pelos ingleses;
·
Para
Portugal, a ideia era tão importante, pois, o caminho de ferro ia facilitar o
acesso ao interior, para garantir a ocupação efectiva no Sul;
·
O caminho
de ferro era a chave de desenvolvimento do Sul de Moçambique devido a
proximidade com África do Sul.
Em 1883, Portugal atribui à concessão da
construção do caminho de ferro que iria ligar Lourenço Marques-Transvaal ao americano, Mac
Murdo.
Em 1887, iniciou-se a construção da
linha férrea Lourenço Marques-Transvaal que foi inaugurada oficialmente, em
1895.
Outra linha de comunicação que cruzava
Moçambique é o caminho de ferro que liga a Cidade da Beira e Rodésia do Sul.
Em 1892, iniciam-se os trabalhos de
construção da linha férrea Beira-Macequesse.
Em 1897, a linha entre Beira e Untali
entra em funcionamento e em 1898 foi inaugurada oficialmente a linha férrea
Beira – Rodésia do Sul.
Exercícios
escritos
1. Quando é
que se inaugurou oficialmente:
a) Caminho
de ferro Lourenço Marques – Transvaal?
b) Caminho
de ferro Beira – Rodésia do Sul
2. Aponte
as razões que levaram Portugal e o governo de Transvaal construrem os caminhos
de Ferro Lourenço Marques – Transvaal?
A EMERGÊNCIA DO
PROLETARIADO URBANO
As obras de construção iniciadas
exigiram muita mão-de-obra. Na sua maioria eram recrutados no Sul do Save e em
Sofala.
O trabalho migratório para os centros
urbanos surgiu em paralelo ao trabalho migratório para os países vizinhos e plantações.
Em consequência, surgem os primeiros
aglomerados nas zonas urbanas e o surgimento dos primeiros trabalhadores
assalariados em Moçambique. De referir que os primeiros assalariados
trabalhavam em obras públicas, remoção de lixo, turismo, trabalhos domésticos e
nos caminhos de ferro, o que deu origem ao aparecimento de camadas
semiproletarizadas urbanas.
Foi no porto e caminhos de ferro de
Lourenço Marques onde estavam inseridos,
o maior número do proletariado urbano.
Este proletariado foi atraído pelos centros urbanos emergentes com objectivo de
conseguir melhores salários, de adquirir dinheiro para o lobolo entre outros.
É um proletariado ainda com bases
assentes ao meio rural e sem nenhuma qualificação e sem consciência de classe
ou seja, eram semiproletários.
Com o decorrer do tempo, ganham certa
autonomia, e começam a reivindicar os seus direitos e melhores condições
salariais.
A
luta do proletariado urbano
Até 1900, o poder colonial português
estava consolidado no Sul de Moçambique, e os laços de amizade e África do Sul
eram fortes.
Em 1904, o governo colonial português
para garantir a mão-de-obra, criou a Curadoria
dos Negócios Indígenas e Emigração com o objectivo de supervisionar o
recrutamento de trabalhadores para as minas Sul-Africanas, bem como para o uso
interno.
O governo colonial tentou impedir o
pagamento de salários elevados. Portanto, o nível de pagamento de salário em
algumas empresas privadas no Porto e caminhos de ferro atraiu muita gente. Mas
as injustiças salariais eram notórias
quer para trabalhadores contratados quer para os não contratados, o que levou
os trabalhadores a protestar e organizar greves como o que aconteceu nas
manifestações de Lourenço Marques (1905 e 1906) e mais tarde, conforme o quadro
ilustrativo.
|
1919 |
Greve
de estivadores negros |
|
1920 |
Greve
pessoal da empresa de transportes urbanos e ferroviários (brancos) |
|
1921 |
Greve
dos estivadores negros |
|
1925 |
Greve
em Lourenço Marques. Houve duplicação de salários e melhores condições de
vida |
As reivindicações desse proletariado
foram parcialmente atentidas:
·
Houve melhorias
salariais;
·
Foi uma acção isolada e
sem coordenação com os restantes
trabalhadores;
·
Não houve diálogo entre
trabalhadores brancos e negros (moçambicanos);
·
Ficaram separados por ideologias racistas.
Qual
foi o papel do governo português?
O
Estado colonial português para fragilizar a greve utilizou as seguintes
estratégias:
·
Aliciamento dos
principais mentores das greves;
·
A táctica de dividir
para melhor reinar, dando algumas regalias aos mulatos e negros assimilados;
·
Repressão, usando a
polícia e outros instrumentos;
A
luta do proletariado urbano fracassou, devido:
·
Falta de unidade no
sector ferro-portuário entre trabalhadores contratados e não contratados,
estivadores, trabalhadores de cais e outros;
·
O Estado colonial
sugeriu as empresas privadas contratar mão-de-obra barata e não qualificada;
·
O uso de força militar para reprimir qualquer forma de reivindicação
salarial.
Apesar deste fracasso, esta luta provou
que os moçambicanos do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico não estavam
satisfeitos com o sistema colonial.
AS PRIMEIRAS FORMAÇÕES
NACIONALISTAS
“As primeiras formações nacionalistas em
Moçambique nasceram da experiência do colonialismo europeu. A fonte de unidade
nacional é o sofrimento comum durante os últimos 50 anos (...) trabalho forçado
e outros aspectos da dominação colonial”. Mondlane, Eduardo, Lutar por
Moçambique, Minerva Central, pp87.
Essas primeiras formações nacionalistas
foram influenciadas com a Nova República Portuguesa (1910-1926) e ideias
pan-africanistas que fizeram protestos na imprensa contra os abusos do
colonialismo.
As associações
As organizações associativas surgiram
nos últimos anos da queda da monarquia portuguesa em 1910, constituídas por mulatos e negros assimilados.
Em 1908, fundou-se o Grémio Africano de
Lourenço Marques que participou no Congresso Pan-africano realizado em 1923, em Lisboa.
Em 1910, surgiu a Liga Africana que
chegou a patrocinar a segunda parte do Congresso Pan-africano realizado em
1923, em Lisboa, em que se faz representar por Grémio Africano.
Em 1917, surgiu a primeira organização
sindical dirigida pelos trabalhadores portugueses da associação do posto e dos
caminhos de ferro.
Em 1920, é legalizada a Associação
Africana de Lourenço Marques (Grémio Africano de Lourenço Marques), a mais
importante e moderada organização da oposição dirigida pelos irmãos Albasini
que integrava grupos de mulatos e negros assimilados.
O
Grémio Africano caracterizava-se pelo seguinte:
·
Os seus membros eram
mulatos e negros assimilados;
·
Além dos irmãos
Albasini estiveram integrados Estâncio Dias, Karel Pott e Francisco Benfica;
·
A sua motivação era a
valorização cultural e promoção intelectual da comunidade negra;
·
O veículo das suas
ideias foi o jornal “O Brado Africano”
·
Era contra a
discrimanação racial.
O papel da imprensa
A imprensa desempenhou um papel muito
importante na divulgação, censura, denúncia dos factos e ideias e maus tratos
do colonialismo português e contestação do sistema colonial.
Para além do Jornal “O Brado africano”,
surgiram outras publicações tais como O
Proletário, fundado em 1912, o
Ferroviário (1915/16), o Germinal (1914/18)
e os Simples (1911/13) e outras que
travaram luta acesa por um despertar da consciência operária entre os colonos
brancos.
Os irmãos Albasini nos seus escritos
quer no Brado Africano quer no Africano reivindicavam reformas no
sistema colonial, exigindo os mesmos direitos que os portugueses. O Brado Africano, devido às suas
actividades, veio a ser suspenso em 1932.
As manifestações literárias e
artísticas
Poetas, pintores e escritores
manifestaram o seu descontentamente perante o facto colonial. Os poetas e
escritores que se destacaram, foram: Noémia de Sousa, José Craveirinha, Rui de
Noronha, Nogar e outros. Nas pinturas Bertina Lopes e Malangatana Nguenha,
esses nas artes pintavam tudo quanto os impressionassem como a fome, a
humilhação, a pobreza e os maus tratos
do sistema colonial.
Exercícios escritos
1.
Como é que foram feitas
as primeiras manifestações contra o sistema colonial?
2.
Explica o papel dos
irmãos Albasini no desenvolvimento do nacionalismo moçambicano.
3.
Identifique as figuras
que se destacaram nas manifestações literárias e artísticas contra o sistema
colonial.
4.
Quando foram fundados
os jornais “O Brado Africano” e “O Africano”? Por que razão o nacionalismo
africano é diferente do europeu?
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